Religiosidade e Restrição ao Lazer: Uma Análise Crítica do Artigo de Andrade et al. (2024)

Religiosidade e restrição ao lazer: Caminhos e escolhas

Religiosidade e Restrição ao Lazer: Uma Análise Crítica do Artigo de Andrade et al. (2024)

Religiosidade e Restrições ao Lazer, tema relevante e persistente no contexto social.

A interface entre religiosidade e lazer constitui um campo de investigação de particular relevância para as ciências sociais e humanas contemporâneas. Ambos os fenômenos representam dimensões fundamentais da experiência humana: de um lado, a busca por transcendência e significado; de outro, a necessidade de expressão lúdica e de desenvolvimento humano.

A compreensão de como sistemas de crenças influenciam as práticas cotidianas de lazer não apenas elucida aspectos da subjetividade individual, mas também revela dinâmicas culturais, processos de socialização e mecanismos de reprodução ou transformação de valores sociais.

O artigo intitulado “Religiosidade e Restrição ao Lazer”, de Andrade, Schwartz e Felden (2024), publicado na revista Plura, representa um esforço louvável e necessário para investigar empiricamente essas relações no contexto brasileiro.

Os autores examinaram uma amostra de 992 trabalhadore(a)s industriário(a)s da região da Grande Florianópolis (Santa Catarina, Brasil), com o objetivo de “analisar possíveis associações entre percepção da religião como aspecto restritivo e variáveis sociodemográficas e subjetivas”.

O estudo em tela possui méritos inegáveis: aborda um tema ainda pouco explorado na literatura nacional e suscita questões pertinentes sobre a interação entre religiosidade e práticas de lazer.

Contudo, uma análise rigorosa revela limitações não assumidas pela autoria, sejam, teóricas, metodológicas e interpretativas que exigem discussão. A presente análise crítica busca, portanto, contribuir para a ampliação da perspectiva adotada, prática inerente ao debate acadêmico.

Religiosidade e Restrições ao Lazer - Contexto do Estudo

O artigo em análise deriva da tese de doutorado de Rubian Diego Andrade, defendida em 2019 na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), sob orientação de Érico Pereira Gomes Felden. A tese, intitulada “O lazer baseado nas restrições e atitudes com repercussões para o bem-estar“, tinha como objetivo geral “avaliar as práticas no lazer, sua relação com as restrições e atitudes, bem como, sua repercussão para o bem-estar”.

Consequentemente, o contexto empírico original era laboral e regional (a amostra foi coletada aleatoriamente em onze organizações da Região da Grande Florianópolis), não sendo especificamente concebido para um contexto religioso.

Essa origem é metodologicamente crucial. A amostra não foi desenhada para investigar a religiosidade como fenômeno central, mas para compreender múltiplas dimensões de restrições ao lazer em uma população de trabalhadore(a)s.

A ausência de identificação denominacional do(a)s participantes (reconhecido como limitação pelo estudo), a não aplicação de instrumentos específicos para mensuração da religiosidade e a falta de controle do tipo de envolvimento religioso (i.e., se o participante apenas se denomina de determinada religião ou se envolve ativamente em sua comunidade de fé) decorrem, assim, dessa delimitação inicial.

Desse modo, o artigo em questão constitui um recorte temático posterior ao objetivo original, com foco em um subitem (que para aspectos metodológicos não se sustenta) de um questionário psicométrico validado.

É imperativo reconhecer que estudos exploratórios (temas pouco investigados), demandam cautela na interpretação dos dados, tendo em vista que o desenho amostral e os instrumentos utilizados não foram concebidos originalmente para a problemática específica apresentada no artigo.

Como será discutido adiante, algumas das principais limitações do artigo decorrem justamente da intencionalidade inicial e da construção da análise da relação entre religiosidade, restrições e lazer.

Fundamentos Teóricos: O Modelo Hierárquico de Restrições ao Lazer

O estudo se fundamenta no modelo hierárquico de restrições ao lazer desenvolvido por Crawford, Jackson e Godbey (1991), que consolida trabalhos anteriores de Crawford e Godbey (1987). Esse modelo representa um avanço teórico significativo nos estudos do lazer, ao superar visões simplistas que reduziam as restrições a meras “barreiras” externas.

Os autores propõem que as restrições ao lazer se organizam em três níveis interdependentes:

  • Restrições Intrapessoais: Fatores de natureza psicológica, moral ou valorativa que afetam preferências e disposições individuais. Incluem crenças sobre o que é apropriado ou desejável, estados psicológicos (estresse, ansiedade, depressão), autopercepção de competência e valores pessoais que orientam escolhas.
  • Restrições Interpessoais: Fatores de ordem relacional e social, como falta de companhia, conflitos entre preferências individuais e de outros significativos, expectativas sociais de gênero, idade ou classe, e dinâmicas de grupo familiar ou de pares.
  • Restrições Estruturais: Fatores contextuais e ambientais que afetam o acesso às atividades, incluindo recursos financeiros, disponibilidade de tempo, infraestrutura disponível, distância geográfica e políticas públicas.

 

O modelo é hierárquico: os indivíduos, primeiramente, negociam as restrições intrapessoais (formando preferências e motivações); em seguida, as restrições interpessoais (articulando desejos pessoais com contextos relacionais); e, por fim, as restrições estruturais (lidando com recursos e contextos disponíveis). A participação efetiva no lazer depende da negociação bem-sucedida desses níveis sucessivos.

O Conceito de Negociação de Restrições:

Um desenvolvimento teórico fundamental foi a introdução do conceito de negociação de restrições. Essa perspectiva, segundo os autores, revolucionou os estudos do lazer ao demonstrar que as restrições não determinam a não-participação. Pelo contrário, os indivíduos desenvolvem estratégias cognitivas, sociais e práticas para negociar as restrições percebidas.

A teoria da negociação propõe que as pessoas podem:

(a) modificar suas aspirações e preferências;

(b) adquirir novos recursos ou habilidades;

(c) ajustar expectativas temporais (realizar agora o que não era possível antes, postergar o que não é viável no momento);

(d) buscar alternativas funcionalmente equivalentes; (e) reinterpretar situações, transformando restrições em oportunidades;

(f) negociar com outros para alterar dinâmicas interpessoais.

Essa conceitualização é crucial porque desloca o foco da presença/ausência de restrições para os processos de negociação. Indivíduos com idênticas restrições objetivas podem apresentar níveis muito distintos de participação no lazer, dependendo de suas capacidades e estratégias de negociação.

A Escala de Restrições ao Lazer (LCS):

A Leisure Constraints Scale (LCS), que pode ser traduzida como Escala de Restrições ao Lazer, foi desenvolvida para operacionalizar empiricamente o modelo hierárquico.

O instrumento contém 21 itens, distribuídos igualmente pelas três dimensões (sete itens por dimensão), respondidos em escala Likert de quatro pontos (1 = discordo totalmente; 4 = concordo totalmente).

Cada dimensão pode atingir pontuação de 7 a 28 pontos, sendo que valores acima do ponto médio (14 pontos) indicam maior percepção de restrição naquele domínio.

A versão brasileira, traduzida, adaptada e validada por Andrade e Felden (2021), manteve a estrutura tridimensional original e apresentou eficácia similar à do modelo original para avaliar as restrições ao lazer.

Um aspecto metodológico fundamental reside no fato de que a LCS foi desenhada para a análise dimensional, não item a item. Os sete itens de cada dimensão complementam-se, capturando diferentes facetas do construto.

A interpretação psicométrica adequada exige a consideração de escores dimensionais agregados, comparando níveis de restrição intrapessoal, interpessoal e estrutural entre grupos ou contextos.

A utilização de itens isolados como variáveis dependentes ou independentes viola os princípios de construção e validação do instrumento, comprometendo a validade de construto das inferências realizadas.

Limitações do Artigo

Uso Inadequado de Subitem como Variável Dependente

O estudo utiliza como variável dependente, ou seja, como principal aspecto a ser investigado, o seguinte item, extraído da dimensão intrapessoal da LCS: “É mais provável que eu faça uma nova atividade no lazer que esteja de acordo com minhas crenças religiosas.”

Os autores categorizaram as respostas dicotomicamente:

(a) discordo totalmente/discordo = “componente religioso não restritivo às práticas no lazer”;

(b) concordo/concordo totalmente = “componente religioso como fator que pode ser considerado restritivo ao envolvimento no lazer.”

Mais fundamental do que a questão psicométrica é o problema semântico-conceitual: o item analisado não mede restrição, mas alinhamento valorativo.

Concordar que “é mais provável que eu faça uma nova atividade no lazer que esteja de acordo com minhas crenças religiosas” expressa, na verdade:

  • Coerência existencial: o desejo de manter congruência entre valores professados e práticas cotidianas.
  • Autenticidade: a busca por uma vivência autêntica, agindo segundo princípios interiorizados.
  • Seletividade valorativa: o exercício de critérios éticos na escolha de atividades, um comportamento esperado em qualquer pessoa com valores (religiosos ou não).
  • Prudência diante do novo: cautela ao experimentar atividades desconhecidas, avaliando-as segundo referenciais pessoais.

 

Nenhuma dessas dimensões equivale a restrição no sentido de impedimento, limitação ou barreira. Pelo contrário, representam um aspecto valorativo — a capacidade de escolher ativamente segundo critérios significativos pessoalmente.

Religiosidade como Negociação, Não como Restrição Pura:

É crucial para esta discussão retomar o conceito de negociação de restrições. Um indivíduo que escolhe atividades de lazer compatíveis com suas crenças religiosas está, na verdade, negociando com sucesso suas restrições intrapessoais, mantendo participação ativa no lazer mediante uma estratégia adaptativa.

A teoria de Crawford et al. prevê justamente esse comportamento: diante de restrições (neste caso, a religiosidade, que poderia tornar certas atividades incompatíveis), indivíduos motivados desenvolvem alternativas funcionalmente equivalentes.

Exemplos empíricos ilustram essa dinâmica:

  • Um muçulmano que opta por piscinas com horários segregados por gênero não está “restrito ao lazer aquático”, mas negociando sua restrição religiosa mediante a escolha de contextos apropriados.
  • Um adventista que participa de atividades recreativas aos domingos em vez de sábados negocia sua restrição temporal religiosa sem abandonar o lazer.
  • Um evangélico que não ingere bebida alcoólica ao participar de uma confraternização com pessoas de diferentes crenças negocia sua restrição normativa, mantendo o envolvimento social.

 

Em todos esses casos, a capacidade de negociação permite a participação no lazer; a ausência dessa capacidade (por falta de alternativas, recursos ou apoio comunitário) é que constituiria uma restrição efetiva. Paradoxalmente, portanto, concordar com o item da LCS indica sucesso na negociação, não fracasso ou impedimento.

No entanto, não se nega que determinadas religiões possam impor restrições aos fiéis na participação em certas atividades, seja por diferentes aspectos teológicos e/ou usos e costumes.

Formulação Adequada para Mensurar Restrição Religiosa:

Caso o objetivo fosse genuinamente mensurar a religiosidade como fator restritivo, itens apropriados deveriam assumir uma formulação negativa, capturando impedimento ou conflito. Exemplos de formulações mais adequadas:

  • “Evito participar de atividades de lazer porque minha religião as desaprova.”
  • “Sinto-me culpado(a) ao praticar atividades que contrariam meus princípios religiosos.”
  • “Gostaria de participar de certas atividades de lazer, mas minha religião não permite.”
  • “Minha comunidade religiosa critica pessoas que praticam determinadas atividades de lazer.”
  • “Deixei de fazer atividades de lazer prazerosas devido a restrições religiosas.”

 

Essas alternativas capturariam de forma genuína a dimensão restritiva da religiosidade, expressando conflito entre desejo e norma, culpa, pressão social ou renúncia. O item efetivamente utilizado no estudo não possui essas características, medindo, em vez disso, integração positiva entre religiosidade e lazer.

Ausência de Mensuração da Religiosidade:

Na psicologia e/ou sociologia da religião, distingue-se claramente entre:

(a) Religião: sistema institucionalizado de crenças, práticas, símbolos e organizações sociais relacionadas ao sagrado;

(b) Religiosidade: conjunto de atitudes, crenças e práticas individuais através das quais o sujeito se relaciona com o sagrado ou com uma tradição religiosa específica;

(c) Espiritualidade: dimensão experiencial de busca por significado transcendente, que pode ou não estar vinculada a religiões institucionalizadas.

 

Não foi identificado na literatura em análise nenhum instrumento validado para avaliar especificamente a relação entre religiosidade e lazer.

No entanto, para mensurar adequadamente a religiosidade em si, existem instrumentos psicométricos validados internacionalmente e em contexto brasileiro, como o Duke University Religion Index (DUREL) e o Índice de Compromisso Religioso.

A não utilização de instrumentos dessa natureza constitui uma lacuna metodológica significativa. O estudo pressupõe que responder um subitem genérico sobre a escolha de atividades “de acordo com crenças religiosas” equivale a medir a religiosidade, quando, na verdade, o estudo não identifica se a pessoa é religiosa, qual a intensidade de sua religiosidade, como ela vive sua religiosidade ou qual tradição religiosa segue.

Ausência de Identificação Denominacional:

O estudo não coletou dados sobre a filiação religiosa dos participantes. Essa ausência é metodologicamente problemática por múltiplas razões:

  • Heterogeneidade do campo religioso brasileiro: O Brasil se caracteriza por um pluralismo religioso extraordinário, abrangendo diversas vertentes do catolicismo, diferentes ramos do protestantismo (histórico, pentecostal e neopentecostal), religiões afro-brasileiras, espiritismo kardecista, religiões orientais e um crescente segmento de “sem religião”.
  • Diferenças normativas substanciais: As tradições religiosas divergem drasticamente em suas percepções relativas ao lazer. Adventistas observam o sábado, católicos não; muçulmanos podem evitar ambientes com álcool, enquanto outras tradições não têm essa restrição; pentecostais podem se abster de danças seculares, ao passo que umbandistas integram a dança à ritualística. Generalizar “religiosidade” sem distinguir essas tradições é sociologicamente incorreto.
  • Impossibilidade de inferências causais: Sem saber qual religiosidade está associada a qual padrão de lazer, torna-se impossível estabelecer relações específicas.

 

A afirmação genérica de que “religiosidade restringe lazer” (título do artigo) é, portanto, insustentável empiricamente. O máximo que os dados permitiriam afirmar é: “entre os trabalhadores investigados, 65,4% concordam que escolheriam novas atividades de lazer compatíveis com suas crenças religiosas” — o que é uma descrição factual, não uma inferência causal sobre o efeito restritivo da religiosidade.

Centralidade do Protestantismo Puritano e Evangélicos

O artigo dedica parte significativa da discussão teórica ao protestantismo puritano e sua histórica discussão às práticas culturais populares de lazer à época. Citando Parker (1978), os autores afirmam:

“Para explicar este posicionamento, Parker (1978) evidenciou, por exemplo, a visão recorrente de algumas vertentes religiosas mais antigas, as quais traziam em seu bojo, certa aversão às práticas culturais e populares referentes às experiências no lazer, por serem estas consideradas profanas, associadas ao paganismo.”

Posteriormente, reconhecem transformações: “Contudo, ao longo da evolução humana, na atualidade, já se podem perceber resistências a esta visão puritana, moldando-se uma relação mais estreita entre as experiências no lazer e a religiosidade.”

Essa discussão padece de anacronismo sociológico: generalizar posturas puritanas históricas (séculos XVI-XVII, contexto europeu-anglicano) para o protestantismo brasileiro contemporâneo ignora transformações teológicas, culturais e sociais fundamentais.

Para além disso, os ramos do protestantismo e do evangelicalismo brasileiros caracterizam-se por uma  heterogeneidade.

Invisibilização do Catolicismo:

Além do anacronismo protestante, nota-se a invisibilização do catolicismo, ainda majoritário no Brasil (cerca de 56% da população, segundo o Censo 2022).

Historicamente, o catolicismo popular brasileiro sempre integrou dimensões devocionais e festivas de modo sinérgico. Festas de santos padroeiros, folias de reis, congadas, cavalhadas, festas juninas, procissões, romarias — todas expressam a imbricação entre religiosidade e lazer, e não a oposição.

Desconsiderar essa tradição revela um viés interpretativo que associa “religiosidade” automaticamente ao modelo protestante, ignorando outras configurações histórico-culturais da relação religião-lazer.

Ausência das Religiões Afro-Brasileiras:

Igualmente notável é a ausência de qualquer referência às religiões de matriz africana. No Candomblé e na Umbanda, a dança, a música, a celebração comunitária e a festividade constituem a própria essência da experiência religiosa, e não atividades marginais ou secundárias.

Desconsiderar essas tradições representa etnocentrismo teórico que toma o modelo cristão (e especificamente protestante e evangélico) como normativo e punitivo, invisibilizando outras formas de articulação entre o sagrado e o lazer.

Essa invisibilização é particularmente problemática no contexto brasileiro.

Ausência de Controle de Variáveis Relevantes

O estudo não controla a “intensidade” ou a centralidade da religiosidade.

Não saber se os respondentes são praticantes fervorosos, frequentadores ocasionais ou meramente identificados nominalmente com tradições religiosas impede análises mais refinadas.

A literatura demonstra consistentemente que a centralidade religiosa (o quanto a religião é importante no sistema cognitivo-motivacional do indivíduo) é uma variável mediadora fundamental nas relações entre religiosidade e comportamento (Huber & Huber, 2012).

Um católico não-praticante que se identifica culturalmente com o catolicismo terá uma relação muito distinta com o lazer do que um católico carismático engajado. Sem essa diferenciação, a análise permanece em um nível superficial.

Incoerência entre Objetivos, Método e Conclusões:

O resumo do artigo afirma que o estudo “teve como objetivo analisar as possíveis associações entre percepção da religião como aspecto restritivo no envolvimento ao lazer, com variáveis sociodemográficas e subjetivas.”

Na discussão, os autores descrevem que: “O intuito deste estudo foi investigar possíveis associações entre percepção da religião como aspecto restritivo para o envolvimento em novas práticas no lazer.”

Todavia, nenhuma avaliação subjetiva foi apresentada no estudo.

Conclusões Apresentadas Pelos Autores: 

Os autores concluem: “Com base nos dados obtidos, percebeu-se que os aspectos religiosos deflagram um percentual elevado de restrição, conforme apontaram 65,4% da amostra participante no presente estudo.” E posteriormente: “Sendo assim, ratifica-se, de forma empírica, a relação entre religião e as restrições ao lazer.”

Evidencia-se um descompasso entre objetivo (analisar associações), método (análises estatísticas de regressão que identificam variáveis associadas ao desfecho) e conclusão (afirmação categórica de que a religião restringe o lazer). Os problemas são os seguintes:

Ausência de análise de associação entre religiosidade e lazer: Nenhuma análise estatística testa se ser religioso se associa a menor envolvimento em lazer. O que foi testado é se variáveis sociodemográficas (escolaridade, renda) se associam à concordância com um subitem sobre a escolha de atividades compatíveis com crenças. Esta é uma análise completamente distinta.

Confusão entre descrição e inferência: Identificar que 65,4% concordam com uma afirmação é estatística descritiva, não evidência de relação causal ou associação. Para estabelecer que “religiosidade restringe lazer”, seria necessário:

 

(a) mensurar a religiosidade independentemente;

(b) mensurar o envolvimento total em lazer;

(c) testar se maior religiosidade se associa a menor envolvimento;

(d) controlar variáveis confundidoras, ou seja, que possam interferir indiretamente nos resultados.

Nada disso foi feito.

 

Inversão interpretativa: Os dados da Tabela 2 (p. 91) mostram que aqueles que orientam o lazer por crenças religiosas apresentam maior envolvimento físico-esportivo. Se for considerado o envolvimento total na EPL (última linha da Tabela 2), as médias são praticamente idênticas: 47,95 (não orientam religiosamente) versus 47,36 (orientam religiosamente), com diferença não significativa (p=0,687). Ou seja, não há diferença no envolvimento total em lazer entre os grupos. Como, então, afirmar que a religiosidade “restringe” o lazer?

A conclusão dos autores de que “ratificaram empiricamente” a relação entre religião e restrição ao lazer é, portanto, insustentável.

O máximo que os dados permitem afirmar é: “entre a amostra investigada, de trabalhadores do setor industrial, maior escolaridade e renda média se associam a uma maior tendência de escolher atividades de lazer compatíveis com crenças religiosas, mas isso não se traduz em menor envolvimento total em lazer.”

A argumentação do artigo pressupõe uma dicotomia entre “liberdade plena de escolha” (ausência de orientação religiosa) e “restrição” (presença de orientação religiosa).

Essa dicotomia é sociologicamente insustentável.

Como demonstra toda a tradição sociológica desde Durkheim, toda vida social implica regulação normativa. Não existe “pura escolha livre”; as escolhas sempre operam dentro de horizontes culturais, normativos e valorativos que, simultaneamente, possibilitam e limitam opções. Durkheim (1996) demonstrou que a coesão social depende de uma regulação moral compartilhada.

Religiosidade e Agência:

A teoria sociológica, notadamente a partir de Giddens (1984) e sua teoria da estruturação, enfatiza a relação dialética entre estrutura (sistemas normativos, incluindo religiões) e agência (capacidade de ação intencional dos sujeitos).

As estruturas não apenas constrangem, mas também habilitam a ação. A linguagem, por exemplo, é uma estrutura que simultaneamente limita (o que pode ser dito) e habilita (a expressão de infinitas ideias dentro das regras gramaticais).

Analogamente, os sistemas religiosos simultaneamente limitam certas escolhas e habilitam outras. Oferecem sentido, comunidade, identidade e propósito — recursos que enriquecem a experiência existencial.

Crítica versus Estigmatização:

É legítimo e necessário que pesquisadores analisem criticamente os aspectos religiosos potencialmente restritivos.

Contudo, essa crítica deve ser empiricamente fundamentada e conceitualmente rigorosa, distinguindo-se de estigmatização que reduz a religiosidade a mero obscurantismo ou opressão.

O artigo analisado apresenta o risco em contribuir para um discurso que deslegitima escolhas religiosas, interpretando-as automaticamente como “restrição punitiva“, sem reconhecer a agência e o sentido que os indivíduos religiosos atribuem às suas práticas.

Considerações Finais

Sob uma perspectiva sociológica, os sistemas religiosos simultaneamente orientam, limitam, habilitam e enriquecem as experiências de lazer. Ademais, oferecem sentido, um sentido comunitário, identidades e valores que moldam preferências e escolhas.

Para alguns indivíduos em determinados contextos, isso pode implicar renúncias como constrangimento; para outros, representa coerência existencial e autenticidade — a capacidade de viver segundo valores genuinamente assumidos voluntariamente.

A produção científica sobre religião, religiosidade e lazer deve pautar-se pelo rigor conceitual, precisão metodológica e “neutralidade axiológica/valores“.

Não compete à ciência julgar se a orientação religiosa das escolhas de lazer é “boa” ou “má”, mas sim compreender como opera, para quem, em quais contextos, com quais consequências (bem-estar, satisfação, saúde, capital social) e mediante quais processos de negociação.

Somente por meio de pesquisas teoricamente fundamentadas, metodologicamente rigorosas e eticamente comprometidas com a dignidade e a agência dos sujeitos religiosos será possível avançar na compreensão desse fenômeno complexo.

Esta análise crítica, apesar de suas limitações, busca contribuir para a reflexão acadêmica, cabendo a futuras investigações o refinamento de conceitos, métodos e interpretações.

A ciência social, em sua melhor tradição — de Weber a Geertz, de Durkheim a Berger —, ensina a compreender antes de julgar, a descrever antes de prescrever, a reconhecer a complexidade antes de simplificar.

É nesse espírito que esta crítica foi elaborada: não para desqualificar o trabalho dos colegas, mas para contribuir para o aprimoramento coletivo do conhecimento sobre um tema fascinante — as múltiplas formas pelas quais seres humanos buscam, simultaneamente, transcendência, alegria, sentido sagrado, vida religiosa e vida lúdica.

Reconhecendo que essas dimensões, longe de serem necessariamente antagônicas, podem entrelaçar-se de modos surpreendentemente criativos e humanamente significativos.

Os convida a ler outro artigo que publicamos no Blog que remete a essa discussão: O Perigo do Viés Acadêmico sobre Religião e Lazer

Deus abençoe!

 Referências

CANTARINO TOLEDO, J. A.; CASSAB, C. O lazer, a periferia e os jovens: relações para discutir o crescimento pentecostal. Terra Livre, [S. l.], v. 1, n. 52, p. 608–640, 2019. DOI: 10.62516/terra_livre.2019.1669.

DURKHEIM, É. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

GIDDENS, A. The Constitution of Society: Outline of the Theory of Structuration. Berkeley: University of California Press, 1984.

HUBER, S.; HUBER, M. The Centrality of Religiosity Scale (CRS). Religions, Basel, v. 3, n. 3, p. 710-724, 2012.

PARKER, A.; WATSON, N. J. Sport and religion: Culture, history and ideology. Movement and Sports Sciences – Science et Motricité, v. 86, n. 2014, p. 71-79, jan. 2013. DOI: 10.1051/sm/2013063.

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Dr. Marcos Maciel

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