O autismo está no centro de debates atuais sobre saúde pública, inclusão e qualidade de vida. Estima-se que cerca de 1 a 2% das crianças brasileiras possuem o TEA, embora os números sejam provavelmente subestimados pela ausência de levantamentos nacionais precisos.
O Guia de Atividade Física para Pessoas com TEA, publicado em 2025 pelo Ministério do Esporte do Brasil, busca orientar profissionais de Educação Física na avaliação, prescrição e acompanhamento de práticas corporais para esse público específico.
Este artigo destaca sua relevância e suas contribuições científicas sobre a relação entre atividade física e autismo.
Ao longo do texto, problematiza-se a concepção do TEA na atualidade e, em seguida, apresenta-se como o guia estrutura os tipos, tempos, intensidades e benefícios das práticas corporais voltadas a esse grupo.
O Guia caracteriza o TEA como uma condição do neurodesenvolvimento, e não como doença, seguindo as classificações internacionais mais recentes.
No CID-10, o TEA aparece no grupo dos transtornos globais do desenvolvimento (código F84), mas no CID-11 (2024) passa a ser definido como único diagnóstico, sob o código 6A02, distinguindo-se apenas a presença ou não de deficiência intelectual.
O DSM-5-TR (2022) complementa essa definição ao destacar a díade central: 1) déficits persistentes de comunicação e interação social e 2) padrões restritos e repetitivos de comportamento.
O guia ainda apresenta os níveis de suporte (1, 2 e 3) que delimitam a intensidade do acompanhamento necessário, desde pessoas que conseguem relativa autonomia até aquelas que demandam cuidados contínuos.
Entre as características associadas, estão maior prevalência de obesidade, distúrbios do sono, disfunções gastrointestinais e vulnerabilidade ao sedentarismo. Isso reforça a importância de estratégias específicas de engajamento em atividades físicas.
Os dados internacionais estimam que pelo menos 1% da população mundial esteja dentro do espectro (Zeidan et al., 2022). No Brasil, a prevalência estimada é de 1–2% entre crianças, mas sem estudos representativos nacionais (IBGE, 2020).
Fatores como baixa capacitação profissional para diagnóstico, resistência familiar em aceitar a condição e ausência de um sistema eficiente de notificação contribuem para a subnotificação.
Quanto às causas, o guia destaca a interação complexa entre fatores genéticos, epigenéticos e ambientais, como poluição, uso de fármacos na gestação, estresse materno e deficiências nutricionais. A etiologia, portanto, ainda é multifatorial e carece de pesquisas mais aprofundadas.
O documento distingue três conceitos: atividade física, entendida como qualquer movimento corporal com gasto energético acima do repouso; exercício físico, planejado, estruturado e repetitivo, voltado ao desenvolvimento de aptidão e habilidades; e esporte, atividade estruturada e competitiva regida por regras.
O uso do termo “atividade física” no título do guia visa dar maior abrangência, incluindo desde atividades cotidianas até programas formais de exercícios.
Para pessoas com TEA, a prática de atividade física enfrenta barreiras adicionais: dificuldades de comunicação, hipersensibilidade sensorial, resistência a mudanças de rotina e ambientes ruidosos.
O guia destaca a importância de estratégias como rotinas visuais, antecipação de atividades, mediação de familiares e comunicação adaptada.
Tais recursos não são meros detalhes, mas condições essenciais para garantir o engajamento e a permanência das pessoas com TEA em programas de atividade física.

O guia compila evidências científicas que indicam exercícios aeróbicos, aquáticos, atividades rítmicas, artes marciais e jogos coletivos como modalidades eficazes.
Sessões de 40 a 60 minutos, realizadas de 2 a 5 vezes por semana, em intensidade moderada, têm mostrado benefícios consistentes em estudos recentes (Cai et al., 2020; Ferreira et al., 2019; Toscano et al., 2018).
A literatura também sugere que intervenções individuais podem gerar ganhos maiores em habilidades sociais e motoras quando comparadas a programas em grupo (Sowa; Meulenbroek, 2012).
Ainda assim, o guia reconhece que não há consenso definitivo sobre a dose ótima de atividade física para pessoas com TEA.
A lacuna reforça a necessidade de ensaios clínicos randomizados que possam estabelecer protocolos mais sólidos.
Benefícios da atividade física para pessoas com autismo:
Entre os principais benefícios destacados estão:
Comunicação e interação social: programas regulares de exercícios têm demonstrado melhorar habilidades de linguagem e socialização, atenuando déficits centrais do TEA (Toscano et al., 2022). Modalidades coletivas, como basquete ou judô, ampliam oportunidades de interação.
Redução de estereotipias: movimentos repetitivos e comportamentos rígidos tendem a diminuir após sessões de exercícios, possivelmente pela fadiga induzida, pela ativação de sistemas de recompensa ou pela redução da excitação fisiológica (Boyd; McDonough; Bodfish, 2012).
Controle de condições de saúde: a prática regular auxilia na prevenção da obesidade, melhora marcadores metabólicos e reduz distúrbios do sono (Matson; Goldin, 2013; Wachob; Lorenzi, 2015).
Qualidade de vida: revisões sistemáticas mostram que crianças e adultos com TEA apresentam ganhos em indicadores psicossociais, emocionais e cognitivos após programas supervisionados de exercícios (Shahane; Kilyk; Srinivasan, 2024).
Esses resultados, embora promissores, ainda variam em função da severidade dos sintomas e da adesão ao programa, indicando a necessidade de personalização e acompanhamento multiprofissional.
Desafios e avanços na implementação do guia:
O guia representa um avanço importante ao consolidar evidências e oferecer instrumentos práticos para profissionais da Educação Física.
Contudo, há limitações: a escassez de estudos nacionais robustos e a ausência de protocolos universalmente aceitos dificultam a padronização de recomendações.
Outro ponto é a necessidade de políticas públicas que ampliem o acesso a programas inclusivos, especialmente em regiões periféricas.
Ainda assim, o documento cumpre papel fundamental ao sistematizar conhecimento científico e adaptá-lo à realidade brasileira.

O Guia de Atividade Física para Pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo é leitura essencial para profissionais de Educação Física, fisioterapeutas, cuidadores e famílias.
Ele mostra como a prática corporal pode ir além da saúde física, tornando-se ferramenta de inclusão, cidadania e qualidade de vida.
A reflexão sobre atividade física e autismo não se restringe à esfera biomédica, mas toca aspectos sociais e humanos profundos.
Por isso, recomendo a leitura integral do guia e o compartilhamento desta resenha como forma de ampliar o debate e fortalecer práticas inclusivas.
Leia também outros artigos sobre atividade física e inclusão no nosso blog para aprofundar seu conhecimento.
Guia de Atividade Física para a População Brasileira: Um Documento Inovador.
Guia de Atividade Física para a População Brasileira: Recomendações para Todas as Idades.
Deus te abençoe!